Pela filha, publicitária se transforma em escritora de livros infantis

Na tentativa de estimular os filhos a fugir do óbvio,
a publicitária Alessandra Montani descobriu que ela mesma podia se transformar em algo mais

cf239vidamelhor_3

Uma vez, nada aconteceu. Não apareceu nem fada, nem princesa, nem herói, nem bruxa. Nada, nadica. Antes do “nada”, porém, existia uma publicitária, dona de uma pequena agência de criação em São Paulo. Havia também um engenheiro estressado com o seu trabalho, e tinha Luísa, uma criança de 4 anos com maturidade fora do comum para a idade. Depois do “nada”, o que ficou foi uma Luísa, hoje com 8 anos, que ilustra quase profissionalmente, um engenheiro que agora pinta quadros com uma realidade de impressionar e uma publicitária que descobriu que podia escrever livros infantis para ajudar outras famílias a pensar o mundo de forma diferente. Essa mulher é Alessandra Montani, e esse é um pedaço de sua vida e de como A Incrível História Sobre o Nada, primeiro livro infantil escrito por ela e ilustrado pela filha, transformou-a em escritora de histórias, cujos protagonistas são sempre a ingenuidade, a interação e o deslumbramento de seus dois filhos, Luísa e o caçula Eduardo, 3 anos.

cf239vidamelhor_2

A Incrível História sobre o Nada
(Foto: Alessandra Montani e Luísa Montani)

Tudo começou em 2009. Alessandra se pegou pensando sobre o que a filha era e não era. Luísa era uma garota extremamente estudiosa, focada, madura. Mas não era de brincar muito, de usar a imaginação. A veia publicitária da mãe despertou o desejo de ajudar a menina a se comportar mais de acordo com o descompromisso infantil. Pegou um caderno, uma caneta e aplicou um conceito muito usado em agências de comunicação, o brainstorming. As duas falavam qualquer palavra que vinha à cabeça e Alessandra anotava em um caderno. “De repente, Luísa se lembrou de uma história que o pai contou uma vez para ela dormir, quando estava cansado de inventar situações protagonizadas pela Cinderela. Ele disse: ‘Era uma vez um dia em que nada aconteceu, não tinha princesa, nem bruxa. Pronto, acabou’. Ela achou aquilo tão engraçado que ficou gravado na memória.”

Então, o “nada” contado pelo marido foi desenvolvido por mãe e filha até se transformar em um livro infantil. “Achei muito interessante essa ideia de desconstruir. A criança entende tudo – tudo o que vê, o tangível. Mas e o nada? O não existir, a não coisa? É pura filosofia, um estímulo ao pensamento. Todos os pais deveriam fazer esse exercício com seus filhos.” Encorajada por amigos, Alessandra procurou uma editora e, quatro ano depois, a história foi publicada. Vale dizer que Luísa participou também de outros processos de criação do livro. Ela ilustrou, escolheu as cores das páginas e, no lançamento, em agosto, sentou-se na grande cadeira de madeira reservada aos autores para autografar algumas das 3 mil cópias.

Novas perspectivas
Bastou o pontapé inicial para que Alessandra entrasse no universo de histórias infantis. Depois de A Incrível História Sobre o Nada, a publicitária já tem na gaveta dezenas de contos e o livro Jardim Mágico, que deverá ser lançado no início de 2014 e também pretende discutir filosofia, assunto que ela adora desde que estudou sobre ele na faculdade. Falando das descobertas em um jardim, como a de um bicho-pau que é confundido com um graveto, a nova obra vai mostrar que nem tudo é o que parece. “Tento provocar essa discussão do diferente. Acho que hoje o pensar está mais enlatado, até pela maneira como as escolas ensinam – em geral, é tudo muito passivo. Então, busco estimular os pais a pensarem junto com os filhos sobre o que normalmente não se pensa.”

O ingrediente desse caldeirão de novos textos é a interação com Luísa e Eduardo. “Eles me dão muitos insights. Ao observá-los, enxergo um universo tão rico que poderia escrever umas mil histórias sobre as descobertas e genuinidade deles”, conta Alessandra, que se recorda de quando a filha estava aprendendo a fazer sua primeira composição de texto, no ano passado. Na ocasião, a menina estava estressada porque não conseguia começar a redação, cujo tema pedia que a criança se colocasse na pele de um astronauta que pisava na Lua pela primeira vez e precisava descrever a viagem.

A ressalva da professora, de que os alunos deveriam começar o texto de maneira diferente, se transformou em angústia e autocobrança para uma garota que não gostava de errar. Na ânsia de ajudá-la, a mãe sugeriu que colocasse algo como “minha viagem foi…”. Luísa foi ficando irritada porque não era assim que queria fazer. Então ela conseguiu traduzir o que estava em sua cabeça: “Quando pus meus pés na Lua, a primeira imagem que vi foi impressionante!”. “Eu é que fiquei impressionada! Mexo com isso em minha profissão, mas são meus filhos que me ensinam a sair do óbvio. De repente, a criança coloca você numa perspectiva que não tinha percebido.” E é por aí que Alessandra tenta levar seus textos.

O exercício constante de novas perspectivas acabou transformando a publicitária de fora para dentro. “Não posso falar para os meus filhos, por exemplo, que um dia de chuva é feio, pois a chuva deixa o tempo mais úmido e melhora a rinite, as plantas precisam dela. Dá para a gente estourar uma pipoca e ficar juntinho vendo filme em casa. Pensando em mostrar o outro lado das coisas para eles, acabo mostrando para mim mesma.”

A vida começa aos 40
Por falar em outro lado das coisas, você se lembra do engenheiro que virou pintor citado no começo da matéria? É o Eduardo, marido da Alessandra. Formado em Engenharia Civil e dono de uma construtora, ele nunca tinha tocado em um pincel até comprar alguns para brincar com a filha. Foi aí que se descobriu um artista, capaz de arrancar suspiros de quem esbarra com suas produções. Tem réplicas de Picasso, de Édouard Manet e de Claude Monet penduradas pela casa da família e alguns quadros expostos em uma galeria de arte de Minas Gerais.

Toda essa revolução na família, no modo de pensar dos pais – muito inspirado pelas necessidades e atitudes dos filhos –, aconteceu há pouquíssimo tempo, prova de que nunca é tarde para se arriscar a levar uma vida diferente da construída ao longo dos anos. Alessandra reflete: “Engraçado como as coisas acontecem. Tenho 40, o Eduardo também. Lancei um livro, ele começou a pintar. Parece que a vida realmente começa aos 40. Acho que ser mãe e ser pai nos abriu esse horizonte e nos tirou daquela coisa de ‘sou publicitária’, ‘sou engenheiro’. A gente não é uma coisa só, a gente é muita coisa.”

DESENHO DO NADA

Luísa nunca foi fã de brincar de boneca ou de casinha. em vez disso, sempre preferiu sentar-se num cantinho da sala ou do quarto e desenhar. e foi justamente por isso que alessandra pediu que a filha ilustrasse a história sobre o nada. você acha que foi fácil? “Mãe, como é que eu vou ilustrar uma história onde não acontece nada? É muito difícil!”, disse luísa. “Respondi que ela não precisava se preocupar, que podia desenhar o que quisesse e aí a gente iria rabiscar por cima, para dar a ideia de ‘não está aparecendo isso’. deu supercerto!”. mais uma vez, uma solução criativa para fazer a diferença.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com/A-vida-e-melhor-com-os-filhos/Inspiracao-do-mes/noticia/2013/10/pela-filha-publicitaria-se-transforma-em-escritora-de-livros-infantis.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s