Transplante de útero: entenda a experiência pioneira e suas implicações

Na Suécia, nove mulheres inférteis receberam transplante de útero e se preparam para engravidar; médico brasileiro comenta questões médicas e éticas da cirurgia

Equipe sueca pratica antes de realizar transplantes de útero (Foto: Johan Wingborg/GU)

Equipe sueca pratica antes de realizar transplantes de útero (Foto: Johan Wingborg/GU)

Logo no início de 2014, médicos suecos anunciaram a realização de nove transplantes de útero a partir de doadoras vivas, numa experiência pioneira. A cirurgia é uma nova forma de reverter a infertilidade, já que as receptoras do órgão foram mulheres que nasceram sem útero ou tiveram de removê-lo por causa de um câncer de colo do útero.

A experiência está sendo conduzida pelo ginecologista Mats Brännström, chefe do departamento de obstetrícia e ginecologia da Universidade de Gotenburgo, e tem levantado polêmica entre a classe médica devido aos riscos envolvidos na retirada de órgãos de pessoas vivas.

As receptoras não poderão engravidar naturalmente, já que o novo útero não foi conectado às trompas de Falópio. No entanto, todas as transplantadas têm ovários e, antes da cirurgia, tiveram seus óvulos retirados para fertilização in vitro. O próximo passo será implantar o embrião dentro do novo útero.

A grande dúvida é se os órgãos transplantados serão capazes de suportar a gravidez e gerar bebês saudáveis. Nos anos anteriores, houve duas tentativas de transplante de útero, uma da Turquia e outra na Arábia Saudita, mas em ambos os casos as receptoras não conseguiram gerar um filho.

A ideia, no caso sueco, é que o útero seja retirado depois de uma ou duas gestações, para que a paciente não precise continuar tomando remédios contra a rejeição do órgão.

O médico brasileiro Abner Lobão, ginecologista e obstetra da Universidade Federal de São Paulo, conversou com CRESCER sobre as implicações – físicas e éticas – deste tipo de cirurgia. Acompanhe:

CRESCER: O objetivo de um transplante de útero é unicamente a gravidez? Ou o órgão também exerce outras funções importantes para o corpo da mulher?
ABNER LOBÃO: O objetivo é apenas engravidar. Pode-se supor que os médicos queiram que a gravidez ocorra o mais rápido possível, para poder retirar o útero logo depois.

C: No caso sueco, algumas das receptoras haviam nascido sem útero. Esse problema é comum? A mulher nasce apenas sem útero ou lhe faltam também outras partes do sistema reprodutor?
A.L.: Este tipo de problema não é muito comum e acontece com frequência bastante baixa. Normalmente está relacionado ao útero apenas, uma vez que os ovários, por exemplo, têm outra origem embrionária.

C: As mulheres que participaram do experimento receberam o útero de parentes vivas, que ficaram sem o órgão. Remover o útero de uma mulher não é prejudicial para ela?
A.L.: A retirada apenas do útero tem pouco efeito sobre a vida das doadoras. Além de perder a capacidade reprodutiva e parar de menstruar, os riscos estão mais relacionados à cirurgia em si, como sangramento, infecção, lesão de órgãos próximos, entre outros. Pode haver também algum comprometimento ligado ao prazer nas relações sexuais.

C: A doadora sofre alguma alteração hormonal?
A.L.: Se os ovários são mantidos, o que parece ser o caso, não há alterações hormonais.

C: E quais as possíveis complicações para a mulher que recebe o útero?
A.L.: São as mesmas complicações cirúrgicas a que estão sujeitas as doadoras, além dos efeitos adversos dos medicamentos que a receptora terá que tomar para evitar a rejeição do órgão. Estes medicamentos, chamados imunossupressores, têm diversos potenciais efeitos colaterais, dependo de quais remédios forem usados e em qual dose.

C: Existe algum conflito ético relacionado ao transplante de útero?
A.L.: Este tipo de transplante, como qualquer outro, envolve riscos importantes, de vários tipos, para a saúde da doadora e da receptora. Quando os transplantes são feitos para salvar vidas, estes riscos são justificáveis. No caso do transplante do útero, em que vidas não estão em risco, o dilema ético é maior.

C: Mas você concorda com a realização dos transplantes de útero? Eles não representam um avanço importante nos tratamentos para fertilização?
A.L.: Para os procedimentos de fertilização é um passo muito importante, pois permite que os mesmos sejam feitos, o que é impossível sem um útero. Evidentemente, cada caso é único, mas em termos gerais não sou a favor do procedimento.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com/Gravidez/Saude/noticia/2014/01/transplante-de-utero-entenda-experiencia-pioneira-e-suas-implicacoes.html

 

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